domingo, 19 de agosto de 2012

Encontros, maldições, traições e fuga!


“É um fraco homenzinho sem pelo esse carniceiro.” – Pensou Rog quando examinava o necromantico com a mesma curiosidade com a qual o mago passou a noite dissecando o zumbi que trouxe consigo da batalha. Seu corpo cheirava a livros e os longos pelos brancos que desciam da cabeça de Malakir eram a única coisa de respeito que ele parecia possuir. Lembrava um pouco os velhos xamãs da tribo do Povo, mas era mais fraco e franzino. E branco! Como um coelho do mato. Aquele sem pelo não poderia ser um grande guerreiro. E a quantidade de palavras estranhas que emitia deixava Rog tonto! Ainda assim foi ele que disse tudo sobre os símbolos. Graças a tradução de Stenon, a percepção de que a conexão entre a Missão, Proteção e Condição era exatamente o ponto que faltava na cabeça do gnoll para entender que o encontro com o Louco Jack foi muito importante.
Sua cabeça ainda doía um pouco, mas os ferimentos causados pelos mortos vivos já estavam quase curados. “Apenas um arranhão” disse a si mesmo. As maquinações do Visionário Negro e Cottar Pikeson visavam libertar a Besta. Isso seria muito pior que qualquer zumbi. Segundo Malakir o ritual consistia em usar a evocação da Besta protegida por magia... “Malditos covardes!” praguejou em pensamento, “Magia de novo...”. O ponto fraco, como explicou o homenzinho cheirando a livros, era justamente impedir o cumprimento de uma das fases do feitiço. Se um deles falhasse, os heróis poderiam tratar a Besta como um inimigo de carne e osso. Um poderoso inimigo de carne e osso.
Mais uma vez Stenon traduziu o rústico – porém simples – idioma gnoll de Rog para fazer o grupo entender que o Louco Jack era possivelmente o próximo a ser morto. Ele ainda devia estar nos calabouços do Salão do Jarl e por isso mesmo o encontro com a fêmea dos Lobos Ulfhedyrs seria um evento de grande sorte! De fato, desde que a khilasa entrou no grupo uma maré de sorte se instalou.
Depois de muito confabular, a hora do lobo finalmente chegou. E com ela, o encontro com a mulher-lobo. No caminho do salão a khilasa veio dizer sobre um estranho sonho. Suas palavras eram doces demais para os ouvidos do gnoll, mas ele entendeu a descrição dos sonhos muito bem. Um homem com um sorriso na face… mas com olhos vermelhos que dizia ser a serpente. O tipo que anda. O disseminador do conhecimento. Este matava um outro sem pelo, vulnerável e louco... tudo sob o olhar selvagem de um lobo – difícil tradução para o gnoll – ou pelo menos um homem vestido com peles de lobo, e de um sem pelo usando armaduras e com porte de guerreiro.
Um vento frio e sombrio soprava do norte. Junto ameaçavam raios que serviam de anúncio para uma tempestade. Talvez por isso, assim que os componentes do grupo entraram, é que as portas foram fechadas. No Salão do Jarl estavam sentados Emma Ulfhendyrdotter no trono da esquerda e um filhote de sem pelos à direita com o mesmo cheiro da mulher-lobo. Devia ter uns 15 invernos de idade, mas observava a todos com olhar aristocrático, muito comum entre os sem pelos dos castelos. Outros soldados se espalhavam pela sala, mas entre eles haviam dois que se distinguiam. Um trajava essas roupas típicas de guerreiros sacerdotes tais como Stenon. Cheirava enigmaticamente como alguém que tem um odor que pretende esconder com outro cheiro. No entanto ninguém poderia ter um cheiro tão desprezível quanto o castelão Cotarr Pykerson que ali a esquerda demonstrava a mesma e antipática desaprovação que lhe era tão peculiar. Rog rosnou para ele. O seu cheiro era de alguma forma familiar. Mas de onde?
O filhote rompeu o silêncio se apresentando como o Jarl. Mesmo o pouco do idioma comum que Rog conhecia era suficiente para fazê-lo entender. Chamava-se Balagor Bahirson e até ter idade, era orientado por sua mãe nas artes da governança. Virou-se para Stenon e indagou:
“Por que utilizas uma espada? Nunca vi um sacerdote portar uma arma cortante.”
Stenon tem jeito para essas coisas... explicou sabiamente que era próprio dos Horns utilizar espada, assim como o próprio Heimdal. Rog imaginou que não teria a mesma sorte em explicar esse tipo de coisa ao filhote. Não possuía perícia nisso. Olhou para Balagor e este estava encarando. Fez um gesto para Rog chamando-o.
“Pus de javali!” – pensou o gnoll.
Desajeitadamente ele abriu caminho entre os companheiros e mais sem jeito ainda saudou o pequeno Jhal. Por sua vez, Balagor o indagou em língua comum, palavras aristocráticas e muito aveludadas para seus ouvidos de bárbaro. Virou-se para Stenon e disse: “Não entendo o que o filhote diz...”, mas antes que o solicito clérigo pudesse responder o Jarl retificou em um gnoll bem dito:
“Pergunto-lhe por que não está armado! Não é a cultura do Povo possuir armas para se defender nas selvas?” - E antes que Rog se recuperasse da surpresa de saber que o pequeno sabia sua língua emendou, “... E não sou um filhote. Eu sou o Jarl!”
A conversa seguiu em gnoll deixando a maioria dos espectadores curiosos, mas Cottar não ficou assim. Ele exalava ódio! Ódio e receio. E isso o traiu. Apreensivo com a conversa, mas principalmente com os olhares que o Jarl lhe lançava, avançou, dizendo:
“São vagabundos, meu Lorde! Como pode dar atenção a tais bajuladores? Não percebe que só querem ouro!”
“Não lhe concedi permissão para falar, castelão. Mas ainda assim o gnoll disse que esteve preso neste salão por ordens suas, Cottar.” – disse o Jarl.
“Esta besta estava espionando o Salão! Eu disse que não precisavam se preocupar. Já havíamos prendido o assassino. É um vendedor de ervas. Está bem guardado.”
“Ele também falou que esse “vendedor de ervas” o acusou de querer matá-lo ou entregá-lo a morte, se bem entendi a sua língua...”
“Absurdo! Uma mentira desesperada! Ninguém iria se livrar dele.”
Nesse momento a pequena khilasa tomou a atitude de falar pelo grupo e com um olhar tão doce quanto enfático lançou a Cottar seu contra argumento insolentemente como somente um de seu povo poderia fazê-lo:
“Mas se você diz que ninguém iria ser entregue, porque enviou Rog numa caixa para as ruínas infestadas de mortos-vivos?”
Cottar emudeceu. Sua garganta rubra de fúria. Cheirava a pavor, ódio e confusão. Quando ameaçou falar foi interrompido pela ordem de Emma:
“Basta! Tragam o prisioneiro!”
O prisioneiro veio carregado por guardas. Ofuscado pela luz seus olhos demoraram a reconhecer onde estava e quando percebeu a presença da senhora Emma disse hesitante:
“Mulheres nas masmorras?”
“Você não está mais nas masmorras.” – falou Nadja.
“Um anjo?! Você veio me buscar?”
E destampou a chorar. Copiosamente. Caiu ao chão com os joelhos e pedia para não mais apanhar. “Chega! Chega!” e deitou em posição fetal.
“Está louco!” – disse Cottar.
Rog avançou até o prisioneiro. Era o mesmo cheiro de urina e medo de quando estava preso junto a ele. O guarda barrou seu caminho, mas mesmo dali era possível ser ouvido. Disse:
“Tok gush!” – a saudação gnoll para algo como “noite ruim” ou “uma noite muito longa”.
“Você?” – respondeu o Louco Jack – “Você sobreviveu meu amigo? Você voltou?”
“O Povo tem honra. Mas por agora, diga a eles o porquê de você temer ser morto pela Besta. Diga toda a verdade.”
Mas o Louco Jack começou a sorrir. E do seu sorriso, onde antes havia um choro copioso, veio o som de uma gargalhada demente. Ao que todos se interpelaram e ao que Cottar franziu o olhar. O Louco disse enfim:
“Eu não vou morrer! RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ! O Visionário me disse em sonho! Eu não sou o próximo da Besta! Eu não sou o próximo da BESTA! RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ! O próximo... O próximo é VOCÊ!” – e dito isso apontou para Cottar.
De súbito uma rajada de vento acompanhada de um estrondo poderoso ecoou na cabeça de todos. Explodiu a porta do salão que havia sido cerrada quando o grupo entrou. Junto com a água da tempestade entrou no grande salão um uivo atormentado, seguido por uma Besta demoníaca com os dentes a mostra.
Cottar, aproveitando-se da confusão, puxou sua espada e num golpe veloz e cheio de fúria trespassou o estomago de Jack.
“Guardas! Protejam o Jarl!” – Gritou a senhora Emma já se levantando e buscando a porta dos fundos enquanto era escoltada por dois guardas. Os demais soldados rodearam o pequeno Jarl e levaram-no pela mesma porta. Logo, só restaram o grupo de heróis e Cottar... com a Besta.
Durante a confusão, enquanto todos se viravam para lidar com a terrível fera apenas uma coisa era certeza. Cottar não pode morrer! Nesse momento algo segurou a pata de Rog chamando sua atenção. Era Jack. E num último esforço de moribundo despejou palavras desconexas e sangue:
“Conte a todos os... pecados... deles. Fale dos... crimes! O... Visionário... não queria... isso...” – e afrouxou a mão do tornozelo peludo do gnoll. Ele entendeu o que fazer, mas quando Rog levantou o pescoço para encarar a Besta, ela havia sumido... e no instante seguinte apareceu atrás de Cottar.
Sentindo o perigo eminente Stenon começou a orar pedindo proteção aos deuses. Suas preces eram como uma canção e todos à sua volta sentiram-se mais fortes. O anão pulou para um lugar seguro enquanto Barristan desembalou um pote de óleo e arremessou na fera, mas o pote atravessou a Besta como se não houvesse qualquer matéria ali e quebrou no chão espalhando óleo por toda a parte. Nadja pôs-se entre a fera e Cottar e Malakir tomou seu flanco. Ambos sabiam que a fera não os atacariam, porque o símbolo da Missão obrigava a Besta a atacar apenas e tão somente seu objetivo. E este era Cottar!
“Os homens sem pelos assassinaram as fêmeas covardemente com veneno!” – Disse Rog para a Besta.
“Seu maldito!” – Soou a Besta dentro da cabeça do gnoll enquanto ela o olhava com ódio.
“Um outro assassinou seu próprio irmão!”
“Desgraçado! Vou decepar sua cabeça com os dentes!”
“O bardo era um violador imundo, comprava ervas desse louco que estava aqui agora para evitar que as moças continuassem a linhagem!”
“Seu bosta! Vou quebrar seus ossos e comer seu coração!”
“ ... e o pai que assassinou o filho de seu filho... “ – Disse emendando o último crime – “... e Cottar encobriu tudo ardilosamente!”
Mas então a Besta sorriu dizendo “Idiota!” e virou-se para Cottar desferindo-lhe uma mordida que arrancou um pedaço de sua perna. Cambaleando e aos gritos o castelão contra-atacou com sua espada. Certeiro, mas novamente um golpe que atravessou o ar, pois a Besta possuía a evocação do símbolo de Proteção e era imune a qualquer arma.
Malakir debruçou-se sobre Cottar ferido e segurando em sua cota de malha gritou:
“Qual foi o seu crime?”
“O que?” – replicou aflito o castelão.
“QUAL FOI O SEU CRIME?” – Esbravejou o minguado necromante que naquele momento parecia ter tirado uma força sobre-humana ao levantar Cottar pelo colarinho da cota.
Apavorado Cottar sussurrou qualquer coisa no ouvido de Malakir, mas recebeu outro golpe da Besta enquanto conversavam. Dessa vez a mordida da fera arrancou o braço e um pedaço do peito do castelão, juntamente com o que havia sobrado de vida naquele corpo ensanguentado.  Cottar morreu ali enquanto outra parte de si perdia os movimentos a cinco metros mais adiante.
“Vocês serão os próximos!” – Ecoou na cabeça de todos a fala infernal da Besta e então uivou:
AAAAAAAAAAAAAAOOUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!
Enquanto os heróis tapavam seus ouvidos dois cães infernais entraram no recinto, prontos para atacar, mas Malakir começou a gritar para a Besta:
“Eu sei de tudo! Dos homens que assassinaram suas esposas com veneno, o irmão que matou o irmão, o bardo estuprador e o avô que matou a filha para não ver nascer o neto! E sei... que Cottar matou Bahir, o grande Jarl, pai de Balagor!” E isso foi muito corajoso. Afinal, o homem com cheiro de livros era mais forte do que aparentava.
E a Besta perdeu sua aura brilhante e o tom fantasmagórico que a cercava agora se tornou concreto e palpável... como Barristan sentiu assim que enfiou-lhe um golpe certeiro no lombo. A Besta gritou de dor! E novamente outro golpe que lhe rasgou a parte posterior. Sangue que jorrava e a Besta se debatia. Seguiu-se uma batalha feroz até que a fera perdeu a paciência e determinou que era o momento de acabar com todos. Usando-se de seu uivo infernal possuiu por instantes a mente dos heróis fazendo uma parte correr como loucos, com medo de sua presença, enquanto Sir Barristan começou a defendê-la como se ela fosse sua amiga. Mas, de repente, ela sentiu algo no ar. Estremeceu e amaldiçoou e voltou-se para os heróis dizendo:
“Isso não acaba aqui! Eu voltarei... por vocês todos!”
E sumiu correndo pela porta a fora, levando seus cães consigo.

Rog presa sangrenta!

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