“É um fraco homenzinho sem pelo esse carniceiro.” – Pensou
Rog quando examinava o necromantico com a mesma curiosidade com a qual o mago
passou a noite dissecando o zumbi que trouxe consigo da batalha. Seu corpo
cheirava a livros e os longos pelos brancos que desciam da cabeça de Malakir
eram a única coisa de respeito que ele parecia possuir. Lembrava um pouco os
velhos xamãs da tribo do Povo, mas era mais fraco e franzino. E branco! Como um
coelho do mato. Aquele sem pelo não poderia ser um grande guerreiro. E a
quantidade de palavras estranhas que emitia deixava Rog tonto! Ainda assim foi
ele que disse tudo sobre os símbolos. Graças a tradução de Stenon, a percepção
de que a conexão entre a Missão, Proteção e Condição era exatamente o ponto que
faltava na cabeça do gnoll para entender que o encontro com o Louco Jack foi muito importante.
Sua cabeça ainda doía um pouco, mas os ferimentos causados
pelos mortos vivos já estavam quase curados. “Apenas um arranhão” disse a si
mesmo. As maquinações do Visionário Negro e Cottar Pikeson visavam libertar a
Besta. Isso seria muito pior que qualquer zumbi. Segundo Malakir o ritual
consistia em usar a evocação da Besta protegida por magia... “Malditos
covardes!” praguejou em pensamento, “Magia de novo...”. O ponto fraco, como
explicou o homenzinho cheirando a livros, era justamente impedir o cumprimento
de uma das fases do feitiço. Se um deles falhasse, os heróis poderiam tratar a
Besta como um inimigo de carne e osso. Um poderoso
inimigo de carne e osso.
Mais uma vez Stenon traduziu o rústico – porém simples –
idioma gnoll de Rog para fazer o grupo entender que o Louco Jack era
possivelmente o próximo a ser morto. Ele ainda devia estar nos calabouços do
Salão do Jarl e por isso mesmo o encontro com a fêmea dos Lobos Ulfhedyrs seria
um evento de grande sorte! De fato, desde que a khilasa entrou no grupo uma
maré de sorte se instalou.
Depois de muito confabular, a hora do lobo finalmente
chegou. E com ela, o encontro com a mulher-lobo. No caminho do salão a khilasa
veio dizer sobre um estranho sonho. Suas palavras eram doces demais para os
ouvidos do gnoll, mas ele entendeu a descrição dos sonhos muito bem. Um homem
com um sorriso na face… mas com olhos vermelhos que dizia ser a serpente. O
tipo que anda. O disseminador do conhecimento. Este matava um outro sem pelo,
vulnerável e louco... tudo sob o
olhar selvagem de um lobo – difícil tradução para o gnoll – ou pelo menos um
homem vestido com peles de lobo, e de um sem pelo usando armaduras e com porte
de guerreiro.
Um vento frio e sombrio soprava do norte. Junto ameaçavam
raios que serviam de anúncio para uma tempestade. Talvez por isso, assim que os
componentes do grupo entraram, é que as portas foram fechadas. No Salão do Jarl
estavam sentados Emma Ulfhendyrdotter no trono da esquerda e um filhote de sem
pelos à direita com o mesmo cheiro da mulher-lobo. Devia ter uns 15 invernos de
idade, mas observava a todos com olhar aristocrático, muito comum entre os sem
pelos dos castelos. Outros soldados se espalhavam pela sala, mas entre eles
haviam dois que se distinguiam. Um trajava essas roupas típicas de guerreiros
sacerdotes tais como Stenon. Cheirava enigmaticamente como alguém que tem um
odor que pretende esconder com outro cheiro. No entanto ninguém poderia ter um
cheiro tão desprezível quanto o castelão Cotarr Pykerson que ali a esquerda
demonstrava a mesma e antipática desaprovação que lhe era tão peculiar. Rog
rosnou para ele. O seu cheiro era de alguma forma familiar. Mas de onde?
O filhote rompeu o silêncio se apresentando como o Jarl.
Mesmo o pouco do idioma comum que Rog conhecia era suficiente para fazê-lo
entender. Chamava-se Balagor Bahirson e até ter idade, era orientado por sua
mãe nas artes da governança. Virou-se para Stenon e indagou:
“Por que utilizas uma espada? Nunca vi um sacerdote portar
uma arma cortante.”
Stenon tem jeito para essas coisas... explicou sabiamente
que era próprio dos Horns utilizar espada, assim como o próprio Heimdal. Rog
imaginou que não teria a mesma sorte em explicar esse tipo de coisa ao filhote.
Não possuía perícia nisso. Olhou para Balagor e este estava encarando. Fez um
gesto para Rog chamando-o.
“Pus de javali!” – pensou o gnoll.
Desajeitadamente ele abriu caminho entre os companheiros e
mais sem jeito ainda saudou o pequeno Jhal. Por sua vez, Balagor o indagou em
língua comum, palavras aristocráticas e muito aveludadas para seus ouvidos de
bárbaro. Virou-se para Stenon e disse: “Não entendo o que o filhote diz...”,
mas antes que o solicito clérigo pudesse responder o Jarl retificou em um gnoll
bem dito:
“Pergunto-lhe por que não está armado! Não é a cultura do
Povo possuir armas para se defender nas selvas?” - E antes que Rog se
recuperasse da surpresa de saber que o pequeno sabia sua língua emendou, “... E
não sou um filhote. Eu sou o Jarl!”
A conversa seguiu em gnoll deixando a maioria dos
espectadores curiosos, mas Cottar não ficou assim. Ele exalava ódio! Ódio e receio. E isso o traiu. Apreensivo com a
conversa, mas principalmente com os olhares que o Jarl lhe lançava, avançou,
dizendo:
“São vagabundos, meu Lorde! Como pode dar atenção a tais
bajuladores? Não percebe que só querem ouro!”
“Não lhe concedi permissão para falar, castelão. Mas ainda
assim o gnoll disse que esteve preso neste salão por ordens suas, Cottar.” –
disse o Jarl.
“Esta besta estava
espionando o Salão! Eu disse que não precisavam se preocupar. Já havíamos
prendido o assassino. É um vendedor de ervas. Está bem guardado.”
“Ele também falou que esse “vendedor de ervas” o acusou de
querer matá-lo ou entregá-lo a morte,
se bem entendi a sua língua...”
“Absurdo! Uma mentira desesperada! Ninguém iria se livrar
dele.”
Nesse momento a pequena khilasa tomou a atitude de falar
pelo grupo e com um olhar tão doce quanto enfático lançou a Cottar seu contra
argumento insolentemente como somente um de seu povo poderia fazê-lo:
“Mas se você diz que ninguém
iria ser entregue, porque enviou Rog numa caixa para as ruínas infestadas de
mortos-vivos?”
Cottar emudeceu. Sua garganta rubra de fúria. Cheirava a
pavor, ódio e confusão. Quando ameaçou falar foi interrompido pela ordem de
Emma:
“Basta! Tragam o prisioneiro!”
O prisioneiro veio carregado por guardas. Ofuscado pela luz
seus olhos demoraram a reconhecer onde estava e quando percebeu a presença da senhora
Emma disse hesitante:
“Mulheres nas masmorras?”
“Você não está mais nas masmorras.” – falou Nadja.
“Um anjo?! Você veio me buscar?”
E destampou a chorar. Copiosamente. Caiu ao chão com os
joelhos e pedia para não mais apanhar. “Chega! Chega!” e deitou em posição
fetal.
“Está louco!” – disse Cottar.
Rog avançou até o prisioneiro. Era o mesmo cheiro de urina e
medo de quando estava preso junto a ele. O guarda barrou seu caminho, mas mesmo
dali era possível ser ouvido. Disse:
“Tok gush!” – a saudação gnoll para algo como “noite ruim”
ou “uma noite muito longa”.
“Você?” – respondeu o Louco Jack – “Você sobreviveu meu
amigo? Você voltou?”
“O Povo tem honra. Mas por agora, diga a eles o porquê de
você temer ser morto pela Besta. Diga toda a verdade.”
Mas o Louco Jack começou a sorrir. E do seu sorriso, onde
antes havia um choro copioso, veio o som de uma gargalhada demente. Ao que
todos se interpelaram e ao que Cottar franziu o olhar. O Louco disse enfim:
“Eu não vou morrer! RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ! O Visionário me disse
em sonho! Eu não sou o próximo da Besta! Eu não sou o próximo da BESTA! RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ! O próximo... O próximo é
VOCÊ!” – e dito isso apontou para Cottar.
De súbito uma rajada de vento acompanhada de um estrondo poderoso
ecoou na cabeça de todos. Explodiu a porta do salão que havia sido cerrada
quando o grupo entrou. Junto com a água da tempestade entrou no grande salão um
uivo atormentado, seguido por uma Besta demoníaca com os dentes a mostra.
Cottar, aproveitando-se da confusão, puxou sua espada e num
golpe veloz e cheio de fúria trespassou o estomago de Jack.
“Guardas! Protejam o Jarl!” – Gritou a senhora Emma já se
levantando e buscando a porta dos fundos enquanto era escoltada por dois
guardas. Os demais soldados rodearam o pequeno Jarl e levaram-no pela mesma
porta. Logo, só restaram o grupo de heróis e Cottar... com a Besta.
Durante a confusão, enquanto todos se viravam para lidar com
a terrível fera apenas uma coisa era certeza. Cottar não pode morrer! Nesse
momento algo segurou a pata de Rog chamando sua atenção. Era Jack. E num último
esforço de moribundo despejou palavras desconexas e sangue:
“Conte a todos os... pecados... deles. Fale dos... crimes! O...
Visionário... não queria... isso...” – e afrouxou a mão do tornozelo peludo do
gnoll. Ele entendeu o que fazer, mas quando Rog levantou o pescoço para encarar
a Besta, ela havia sumido... e no instante seguinte apareceu atrás de Cottar.
Sentindo o perigo eminente Stenon começou a orar pedindo
proteção aos deuses. Suas preces eram como uma canção e todos à sua volta
sentiram-se mais fortes. O anão pulou para um lugar seguro enquanto Barristan
desembalou um pote de óleo e arremessou na fera, mas o pote atravessou a Besta
como se não houvesse qualquer matéria ali e quebrou no chão espalhando óleo por
toda a parte. Nadja pôs-se entre a fera e Cottar e Malakir tomou seu flanco.
Ambos sabiam que a fera não os atacariam, porque o símbolo da Missão obrigava a
Besta a atacar apenas e tão somente seu objetivo. E este era Cottar!
“Os homens sem pelos assassinaram as fêmeas covardemente com
veneno!” – Disse Rog para a Besta.
“Seu maldito!” – Soou a Besta dentro da cabeça do gnoll
enquanto ela o olhava com ódio.
“Um outro assassinou seu próprio irmão!”
“Desgraçado! Vou decepar sua cabeça com os dentes!”
“O bardo era um violador imundo, comprava ervas desse louco
que estava aqui agora para evitar que as moças continuassem a linhagem!”
“Seu bosta! Vou quebrar seus ossos e comer seu coração!”
“ ... e o pai que assassinou o filho de seu filho... “ – Disse
emendando o último crime – “... e Cottar encobriu tudo ardilosamente!”
Mas então a Besta sorriu dizendo “Idiota!” e virou-se para
Cottar desferindo-lhe uma mordida que arrancou um pedaço de sua perna.
Cambaleando e aos gritos o castelão contra-atacou com sua espada. Certeiro, mas
novamente um golpe que atravessou o ar, pois a Besta possuía a evocação do
símbolo de Proteção e era imune a qualquer arma.
Malakir debruçou-se sobre Cottar ferido e segurando em sua
cota de malha gritou:
“Qual foi o seu crime?”
“O que?” – replicou aflito o castelão.
“QUAL FOI O SEU CRIME?” – Esbravejou o minguado necromante
que naquele momento parecia ter tirado uma força sobre-humana ao levantar
Cottar pelo colarinho da cota.
Apavorado Cottar sussurrou qualquer coisa no ouvido de
Malakir, mas recebeu outro golpe da Besta enquanto conversavam. Dessa vez a
mordida da fera arrancou o braço e um pedaço do peito do castelão, juntamente
com o que havia sobrado de vida naquele corpo ensanguentado. Cottar morreu ali enquanto outra parte de si
perdia os movimentos a cinco metros mais adiante.
“Vocês serão os próximos!” – Ecoou na cabeça de todos a fala
infernal da Besta e então uivou:
AAAAAAAAAAAAAAOOUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!
Enquanto os heróis tapavam seus ouvidos dois cães infernais
entraram no recinto, prontos para atacar, mas Malakir começou a gritar para a
Besta:
“Eu sei de tudo! Dos homens que assassinaram suas esposas com
veneno, o irmão que matou o irmão, o bardo estuprador e o avô que matou a filha
para não ver nascer o neto! E sei... que Cottar matou Bahir, o grande Jarl, pai
de Balagor!” E isso foi muito corajoso. Afinal, o homem com cheiro de livros
era mais forte do que aparentava.
E a Besta perdeu sua aura brilhante e o tom fantasmagórico
que a cercava agora se tornou concreto e palpável... como Barristan sentiu
assim que enfiou-lhe um golpe certeiro no lombo. A Besta gritou de dor! E
novamente outro golpe que lhe rasgou a parte posterior. Sangue que jorrava e a
Besta se debatia. Seguiu-se uma batalha feroz até que a fera perdeu a paciência
e determinou que era o momento de acabar com todos. Usando-se de seu uivo
infernal possuiu por instantes a mente dos heróis fazendo uma parte correr como
loucos, com medo de sua presença, enquanto Sir Barristan começou a defendê-la
como se ela fosse sua amiga. Mas, de repente, ela sentiu algo no ar. Estremeceu
e amaldiçoou e voltou-se para os heróis dizendo:
“Isso não acaba aqui! Eu voltarei... por vocês todos!”
E sumiu correndo pela porta a fora, levando seus cães consigo.
Rog presa sangrenta!