Para
o fim de ser documentado nos autos oficiais do Reinado do Norte, pela ordem de
Sua Majestade o Rei Erik Olson, o Unificador
Dia 24 de rijen do ano de 418, do Reinado de Erick Olson
Vila de Sjoistad, às margens do Grande Lago Sjois
Prosseguimos
em nossas investigações naquele lugarejo ainda afastado das luzes do
conhecimento. A cada local que visitávamos, o quadro se repetia: seres humanos
se comportando como máquinas, desempenhando as tarefas rotineiras de suas
existências sem sentido de forma absolutamente vazia. A questão da ausência de
sombras também persistia. A julgar pelo ritual mágico que parece ter sido
realizado no templo de Njord que esses ignorantes veneram, a ausência de livre
arbítrio está ligada à subtração de suas sombras. Esta é apenas uma hipótese.
Conforme
narrarei mais adiante, conseguimos colher informações provenientes de uma carta
dentro de uma garrafa e de um sobrevivente, sendo que ambos relataram os fatos
se utilizando das mesmas expressões, ainda sem sentido para nós.
Disseram em
resumo: Os agressores foram nomeados “Homens Dançantes”, de hábitos noturnos, portando
cimitarras e atacando, sem matar suas vítimas. A expressão “dançantes” parece
ter relação com a forma como lutam, o que indica que não devem ser brutos
imbecis como orcs ou semelhantes. Eles são precedidos por criaturas semelhantes
a cães, que agem como batedores e tem a habilidade mágica de cuspir fogo. Foram
descritos como espécimes humanóides, pálidos e sem pelos, exceto os crescentes
na cabeça. Usam poucas roupas, incongruentes com o clima da região, o que me
leva a suspeitar de sua natureza humana. Hei de pesquisar mais sobre o assunto
quando me for possível. Hei de encontrar algum registro sobre seres com
semelhantes características.
Tais criaturas
apresentam um interesse específico pelo cemitério da cidade. Eles desenterram
corpos e se vão sem deixar rastros possíveis de serem seguidos. Não é possível
precisar a real situação, tendo em vista as informações conflitantes. A
princípio, teorizei que essas criaturas pudessem ter natureza não maligna,
tendo em vista que poderiam ter eliminado os moradores do vilarejo sem
problemas, mas não o fizeram. Como também não os escravizaram, poderiam apenas
tê-los tirado de seu caminho enquanto realizavam seu intento - ainda por nós
completamente ignorado – nas escavações no cemitério. Eles poderiam estar
escavando os túmulos, inclusive, para eliminar algum mal ou risco iminente. (Nota: Pesquisar também sobre as
conjunções astrais para verificar se algum marco cósmico de relevância se
avizinha).
Porém, a forma
como isso foi feito, ou seja, o ritual profanando o templo do deus do mar
indica um desrespeito pela cultura e a forma da magia não me agradam. Me parece
mais magia profana do que arcana, esse “aprisionamento de sombra” ou de “alma”,
entretanto, uma conclusão de valor demanda mais dados. Muito me intriga que o
ranger que nos acompanha, sendo um nativo destas terras, desconheça total e
completamente a existência de tais seres, ou tenha qualquer informação sobre
estes fatos. Levando em conta que ele fora muito bem recomendado pelo líder dos
Vet Ulf, de forma que, creio que, se ignora sua existência, estas criaturas são
novas na região. Tomara que seja mais do que um mero guia matreiro.
São
informações conflitantes as que temos até agora. Dados mais precisos precisam
ser coletados, selecionados, catalogados e relativizados. Ainda é cedo para
definir amigos e inimigos. Por enquanto, apenas considero tudo suspeito. De
resto, sabemos que há um monstro gigante no lago que nada perto das docas. Não
sabemos que tipo de relação tal monstro tem com os fatos ou mesmo se há alguma
relação, mas é fácil concluir o motivo de esses camponeses/pescadores venerarem
o deus bondoso do mar, posto que serão crentes de que ele seria capaz de
apaziguar a besta aquática.
Não sabemos
também nada a respeito dos goblinóides que proliferam como moscas numa carcaça,
floresta afora. Vossa Majestade precisa ser informada sobre esse fato para que
providências sejam adotadas. Há pessoas vivendo nestas terras e como pagadoras
de impostos, merecem ser protegidas. Ainda mais porque a proliferação de pragas
dessa natureza denota uma das duas coisas a seguir ou mesmo ambas: Descaso das
autoridades e/ou o oportunismo da maleficência, que se aproveita de outro fato
ainda maior para estender seus tentáculos. (Nota
2: Informar ao Reinado sobre este fato).
Sabemos ainda
que há uma criatura nomeada como “Bruxa Branca”. Certamente os pescadores lhe
deram esse nome por sua aparência. A julgar pela descrição que dão dos tais
“Homens Dançantes” pertencem à mesma espécie. Mais tarde, descobrimos que sim,
que eles mantém relação, inclusive de subordinação, posto que eles a chamam de
“Senhora”.
Vamos aos
fatos:
1 –
Investigando uma casa parcialmente queimada, o druida e eu encontramos quatro
corpos carbonizados. Enquanto o druida investigava o motivo do incêndio, me
ocupei de um dos corpos, que era de uma fêmea de nossa espécie, a julgar pela
ossatura. Enquanto investigava percebi uma presença, que se apresentou na forma
de uma luz piscante que aparecia e desaparecia em meu campo de visão.
Rog, o gnoll
em processo de civilização, chegou momentos mais tarde, mas nisso, eu já sentia
a ameaça no local. Um feitiço de detectar magia, acusou perturbação na Trama
naquele lugar e como eu não enxergava nada, decidi que seria melhor me retirar,
mas fui atacado por uma aparição flamejante.
A entidade
ostentava um semblante de ódio e parecia personificar a dor dos que ali
morreram carbonizados ou pior ainda, parecia ser o espírito torturado de algum
deles. Fato é que se lançou sobre mim com chamas que destruíram minhas vestes e
lamberam minha pele, causando dor excruciante.
Sir Gideon, o
paladino de linhagem nobre, se aproximou com suas boas intenções, porém, de
nada adiantaram suas preces, posto que, contra magia, apenas magia é suficiente
e deuses e espíritos nada podem. Dissipei a magia e o fogo se apagou, porém, a
criatura continuava a assediar a trupe. Não sou ligado a questões abstratas e
inseguras como as relações com seres noutros planos e dimensões, mas, concluí
que, pela sabedoria popular, aquela manifestação de ódio poderia apenas estar
buscando descanso.
Sugeri que
recolhêssemos os corpos e os depositássemos em solo considerado sagrado pelos
crentes. Parece ter funcionado, pois retornamos ao local e não havia mais sinal
da entidade. Torço para que tenhamos resolvido o problema, tendo em vista que
algo dessa natureza poderia ser letal à população comum e as autoridades
locais, pelo visto, não tem estrutura para lidar com algo mais complexo que o
roubo de gado.
2 –
Vasculhando a parte superior da vila, fomos surpreendidos com a presença de uma
criança fugidia. No início achamos que poderia ser um inimigo, mas depois
percebemos que não, pela atitude. Os rastreadores o encurralaram numa casa mais
à frente e após encantá-lo, ele contou sua história triste, que já foi
relatada, em resumo, em minhas considerações anteriores. O garoto, de nome Kian,
confessou ter uma irmã que se perdeu na floresta em busca do ser denominado
Bruxa Branca. Após alguma discussão, na qual argumentei que deveríamos observar
o local de interesse dos “Homens Dançantes”, e a maioria gostaria de vasculhar
a floresta em busca da menina, me rendi e prosseguimos caçando a menina perdida
e a tal bruxa.
3 – Os
rastreadores encontraram a trilha da criança, que havia sido importunada por
goblins em sua busca, mas fora salva por uma muralha mágica de poder
considerável e além de minhas capacidades arcanas de dissipação. O druida então
nos deu uma mostra de aguda perspicácia! Ele concluiu, pelo cenário e,
obviamente por sua vivência mágica, que a criança entrara por acidente, fugindo
acuada por seus ignóbeis perseguidores, acabou atravessando a muralha. Sugeriu
então que tentássemos passar de costas. Surpreendentemente, funcionou! Graças à
esperteza do homem da Ilha, conseguimos transpor o primeiro obstáculo.
4 – Nos
deparamos com o segundo. Uma muralha de névoa que era, na verdade, um feitiço
de desorientação. Identifiquei isso através de magia, mas, novamente, meus
poderes eram insuficientes para dissipar o feitiço. Adentramos na névoa e nos
perdemos uns dos outros. A névoa sufocava e tantas vezes quanto tentamos,
falhamos. O garoto Kian foi o primeiro a desaparecer permanentemente de nossas
vistas. Permanecemos envolvidos com esse enigma metade da noite.
Dessa vez Sir Gideon foi o perspicaz e
concluiu que se não respirássemos a névoa, ela não nos afetaria. Tal fato foi
confirmado, o que exigiu grande esforço de todos para transpor a névoa
prendendo por longo tempo o folego.
5 – Rog,
Stenon e Gideon passaram primeiro e se depararam com um riacho. Cheguei em seguida
e fui sucedido por Olaf, o ranger e o druida, que demoraram mais a se “entregar
à morte” para transpor o enigma da névoa. O riacho era claramente mágico. Suas
águas frias escondiam algo misterioso e decidimos que o melhor seria transpô-lo
sem riscos e o forte Rog derrubou uma árvore que fez as vezes de ponte para
atravessarmos.
6 – Passado o
último desafio, avistamos algumas colinas à frente, uma língua de fumaça
subindo aos céus. Caminhamos até lá e encontramos uma choupana tosca. Uma
criatura cuja descrição casava impecavelmente com a dada pela criança
sobrevivente da vila se mostrou a nós saído das trevas do interior da cabana.
Vinha caminhando com passos leves. Portava a cimitarra característica já antes
apontada. Veio a nós e disse: “Já era hora. A Senhora os espera e quer lhes
falar. Por favor, entrem e tenham a bondade de aguardá-la.”.
O humanóide
falava uma língua antiga, parecida com o elegante Khad, dos anões. Isso, de per se, denotava erudição. Percebi por
que os ignorantes chamaram-nos “Homens Dançantes”, haja visto a graça e leveza
de seus movimentos. A mim, numa primeira e despretensiosa impressão, se
assemelham aos Kihlasa, com algumas variações. O fato de não os ter visto à luz
do sol me incomoda. Geralmente isso não é um bom indício. A índole dos seres da
noite costuma ser tão sombria quanto seu ambiente. O uso de alta magia é outro
indício de erudição e de proximidade com os velhos eldar do sul, mas, conforme
eu já disse, ainda é cedo para conclusões.
Escrevo estas
notas enquanto aguardo pela chamada “Senhora”, que, com grandes chances de
acerto, me arrisco a dizer que é a mesma criatura nomeada de Bruxa Branca. Meus
companheiros estão apreensivos e se comportam conforme suas naturezas. O gnoll
bebeu dos frascos na prateleira sem que lhe tenha sido oferecido ou permitido.
Stenon se aninhou num canto orando à sua divindade. Tomara que seja lá o que
for, que o ouça. Gideon vai de um em um oferecendo seus préstimos. Devia
descansar, isso sim. Não sabemos o que nos espera. O ranger se mantém taciturno
e quieto, como é da natureza desses matreiros. O druida estuda seus feitiços
naturais.
Todos
aguardamos pela Senhora...
Vejamos o que
a Trama guarda para nós.