Contos

"História escrita a lápis, lápis-borracha para tudo ser mais prático. Escrita de qualquer jeito, torta, em linhas invisíveis."


A canção vermelha...

            Horas haviam passado, já quase não ouvia seus perseguidores. Escalara, se escondera, correra, tudo durante horas, no escuro e no frio. Seus companheiros já deviam estar a salvos no círculo, pelo menos era o que esperava. As pernas doíam de esforço, os braços marcados e feridos, mas o pior era o frio, maldita e fria ilha. Is O, a ilha do gelo, agora sabia o porquê do nome! Ficar parado é esperar Hella, fria morte, confortável e fria morte, mas não para ele. Não daria uma boa canção.
            Obrigou-se a caminhar. O gelo fazia as pedras escorregadias e traiçoeiras, e não havia trilhas nas montanhas, mas devia continuar, ao sul, sempre ao sul. Após algumas horas, já com a fraca luz do sol no alto, já não se importava em esconder seu trajeto do possível olhar de seus perseguidores, bastava continuar e continuar.
            Jogou seus itens pelo caminho, o peso se tornara insuportável, agora trazia apenas a espada eldarin e seu grimóire, itens valiosos demais para as montanhas. O sol e o gelo queimavam sua face e olhos, a ponto de provocar ilusões. Várias vezes foi surpreendido ao perceber que a trilha que vira nada mais era que algum truque da visão. Continuar, apenas continuar...
            Já era noite quando chegou a um platô de pedra e resolveu descansar. Descansar, sem comida, molhado e dolorido, que piada, não era descanso era exaustão, era desistência. O sono veio agitado, nele a menina o procurava, e então desistiu, concluiu o óbvio, estava morto, sua última canção. Agitou-se, se moveu, e caiu.
            A forte batida contra a rocha dura o fez acordar, o ombro estava quebrado, a dor o fez abrir os olhos. Não era um platô de pedra, era a marquise de uma construção na pedra, a entrada de uma construção estranha, curva, alta e sem janelas, as paredes da rocha eram vermelhas e onduladas. Não foi uma mão de khâd ou de homem que a construiu, muito parecida com a anterior, aquela onde enfrentaram a última das três. A entrada estava livre, e um calor saia da boca da construção. Um esforço a mais, mais alguns passos.
            Parece que ainda havia uma canção para Harak o vermelho, os deuses não o deixariam morrer sem uma bela canção...


A ascensão do lobo...

            O cerco havia partido. Os portões de Eiden Zuid estavam abertos e caravanas de alimentos provenientes de Kjar entravam para saciar a fome e sede dos sitiados. Os exércitos de lorde Eric Olson e de Capitão Cech forma direcionados diretamente ao cerco, os homens de Kjord, juntamente com os anões, ficaram encarregados de impedir qualquer auxílio aos orcs sitiadores. Sob o comando de Ulfednar Ulfendyrson, eles percorreram as margens do rio Sjois desde a boca do grande lago até as proximidades da cidade, destruindo todas as tribos e acampamentos orcs encontrados. Agora Ulfednar observava os orcs se reagrupando do outro lado do rio. Expulsos do cerco, os orcs se organizavam em uma posição muito mais defensável, expulsá-los levaria meses e o custo seria altíssimo. Dagalor, líder dos anões se aproximou e disse:
“Nunca via orcs tão organizados, é como se todas as tribos estivessem seguindo um único líder”.
“O que faria os orcs seguirem apenas um, agora que as bruxas foram destruídas?” respondeu Ulfednar, pensativo.
“Um shaman ardiloso ou um guerreiro poderoso”.
Ao olhar por sobre o rio, para um aglomerado de orcs no centro da planície, Ulfednar tem um súbito pensamento e se dirige a um de seus cavalariços: “Traga-me alguém que fale a língua dos orcs”.
Uk gotarr nak lida ortenc orcs! Ulfednar relembrava as palavras em sua mente enquanto a pequena embarcação cruzava as águas manchadas de sangue do rio Sjois. Remava calmamente, poupando forças para o que viria. Sozinho, no escuro, portando trajes ensanguentados de um grande orc abatido no dia anterior. Há alguns metros antes da margem saltou, caminhou em silêncio em direção ao centro do acampamento. Nenhum homem ousaria tal feita, e nessa crença pendia o sucesso de sua empreitada. Os deuses estavam de bom humor ou talvez Loki lhe preparasse uma última pilhéria. Chegou a poucos metros da grande cabana que supunha ser a do líder orc, foi interpelado por um guardião, “Tak ar grunsh de ber”. Um rápido movimento e sua adaga de prata o silenciaram, faltava pouco agora. De pé no centro do círculo que se formou ao redor da cabana, retirou seu disfarce e gritou:
“Uk gotarr nak lida ortenc orcs!!!”
Eu sou o mais forte, não há mais forte entre os orcs! O grito de desafio ecoava pelo acampamento orc. De dentro da cabana saíram três ogros, um orc baixo e esguio, um shaman e Bogrum, fende homens. Absolutamente o maior orc já visto por Ulfednar, ao menos um palmo maior que o próprio guerreiro. Um ogro, portando um enorme tacape, grosso como um remo se adiantou em investida. Ulfednar se apoiou no pé esquerdo e fez o giro, aproveitando o momentum da própria criatura, fez o calço com o escudo fazendo o imenso ogro se esparramar no chão. Em um instante sua espada de Estocol estava desembainhada, e sangue negro escorria na lâmina. Ulfednar torceu a espada nas entranhas da estupefata criatura, enquanto todos observavam.
“Bogrum comerá seu rosto. Meus lobos roerão seus ossos, homem”! A última palavra cuspida em desprezo e ódio. Conhecer a língua dos homens mostrava que Bogrum era inteligente, e portanto ainda mais perigoso. Os orcs gritavam em sua língua gutural, mas os ouvidos de Ulfednar estavam moucos, apenas o instinto de guerreiro estava presente. Não havia capitão, não havia homem, não havia mais intenções ou planos, apenas o grande ser a sua frente.
Extremamente rápido para seu tamanho, Bogrum atacava com grandes giros de machado. Apenas um golpe já seria suficiente para colocar Ulfednar fora de combate, por isso o guerreiro cedia espaço. Precisava entrar no alcance de sua espada, mas os braços largos e o cabo estendido do machado o colocavam a quase três metros de seu alvo. No tempo certo o guerreiro avançou, o cabo do machado o atingindo na altura do tórax, a armadura anã absorve a maior parte do impacto, mas mesmo assim ele sente suas costelas se partirem. A distância encurtada, Ulfednar começou a dança de sua espada, o orc se defendendo com suas manoplas. O ex-capitão de Kjord desfere um poderoso chute tirando o equilíbrio do grande orc, a defesa se abre e a veloz espada forjada a mais de quatrocentos anos abre caminho através de malha, couro e músculos. O golpe teria parado um javali atroz, mas apenas aumentou a fúria do líder dos orcs, que com a espada presa em seu dorso, levantou o corpo de Ulfednar o atirou ao chão. Zonzo, a cabeça girando, o guerreiro se levantou e sentiu a poderosa mordida contra seu ombro esquerdo. O braço imediatamente ficou inerte, uma dor profunda invadiu seu corpo. Sem sua espada, com a respiração cortada pela pressão das costelas partidas, braço esquerdo inutilizado, Ulfednar é novamente levantado do chão e atirado para longe. Sua força se esvaia junto com o sangue e a esperança de sobreviver.
O orc caminhou em sua direção, confiante na vitória, seus shamans logo o curariam do ferimento mortal feito pela espada do homem a sua frente. Recuperou o grande machado e se preparou para o golpe final, o homem não tinha mais forças, abaixou a cabeça derrotado. Bogrum ergueu o enorme machado, e num vislumbre percebeu a finta, o homem abaixou a cabeça para esconder o movimento de seu braço, que agarrou um martelo de batalha e o arremeçou.
O martelo de uru voo no ar atingindo em cheio a cabeça do grande orc. Bogrum cambaleou na direção de Ulfednar, que o recebeu com um golpe de sua adaga na goela. O sangue negro de Bogrum escorreu por sua mão. Os orcs se silenciaram. Ulfednar se levantou e atirou o machado de Bogrum no chão. “Os orcs são criaturas do caos, não manterão sua palavra, uma vez que você derrote o líder, se conseguir, eles o atacarão e destruirão.” As palavras de Dagalor ecoavam em sua mente. Recuperou sua espada, morreria com ela em mãos.
Sua missão estava cumprida, os orcs lutariam entre si pela liderança, as tribos se dispersariam, e mesmo que não o fizessem, careceriam de uma liderança coesa e seriam massacrados pelo exército reunido de Eiden Zuid, Kjord e Kjar. A chama do norte os expurgaria. Se lembrou da mesa onde planejaram a luta contra o cerco. Cech liderava os homens de Eiden Zuid, seu pai Ulfendyr os de Kjord, Dagalor partira para reunir os anões, Grimm esperava para lutar ao lado de Kjord com seus khilasa, e ao jovem Eric Olson, nobre nascido da família da rainha, caiu a liderança dos desesperançados homens de Kjar. Houve discussão sobre quem seria o líder geral e isso ameaçava a tênue aliança, quando Thanos Turambar atirou a Kallas Norr, a chama do norte sobre a mesa. Todos entenderam! Cech tentou empunhar a espada, e foi rejeitado. O velho Ulfendyr nem tentou, e quando o jovem Olson a ergueu, as chamas irromperam e todos entenderam que haveria um novo rei. Esse pensamento o fez sorrir! Alguns orcs se aproximavam, lanças em punho.
O grito das corujas os fez parar! Dez enormes corujas das neves sobrevoavam o círculo formado ao redor de Ulfednar. Elas atiravam tocos e pedaços de madeira de diversos tamanhos ao redor do guerreiro. Duas delas o agarraram pelo ombro, a dor explodiu no seu lado esquerdo. Sob seus pés viu os pedaços de madeira se transformar em serpentes! Os mannem haviam chegado! Bendito velho da montanha. Desfaleceu.
Acordou no dia seguinte em um acampamento. Suas feridas cicatrizadas, curadas por magia, com certeza. Dagalor estava ao seu lado, o anão apenas sorriu e saiu de sua tenda.  Entrou seu pai. “Arriscado, mas eficaz. Isso vai lhe render um bom casamento, e como meu herdeiro, será dono de terras em Kjar e Kjord, nossa família crescerá!” Sempre conspirando, sempre negociando. Velho lobo, melhor seria velha serpente. De repente, o jovem Eric Olson entra na tenda. Um sorriso apareceu nos velhos lábios do velho lobo.
“Lorde Olson!” disse Ulfednar.
“Rei, o acordo foi feito. Rei Eric Olson, guardião das terras, soberano sobre os aruks, gnolls e mannem. Portador da chama do norte, Kallas Norr!” respondeu o jovem rei.
“Tenho uma proposta”, disse o rei. “Lamento não ter tido tempo de discuti-la com Lorde Ulfendyr”.
“Para não haver disputas pelas terras eu montarei meu próprio exército. Abdico de minhas terras enquanto nobre e formarei uma unidade do reino. Skodgramr, o exército vermelho do rei. E quero você como meu general. General Ulfednar, o escudo élfico, fende orc. Abdicarás de sua herança, receberá uma mansão para teus troféus. Seus pertences serão meus, e obedecerás ao rei e não a seu pai.”
O sorriso de Ulfendyr sumiu quando Ulfednar respondeu: “Sim, meu rei!”

6 comentários:

  1. O Júlio conduziu muito bem os momentos finais do Harak. Foi perfeito o 'final' do personagem na última temporada. Eu gostei muito como as coisas se deram... e como serão de agora em diante. Tomara que o Vermelho tenha encontrado uma canção digna de sua história!

    ResponderExcluir
  2. Esse "VERMELHO" teria alguma coisa haver com o "Viajante Vermelho"?

    ResponderExcluir
  3. Posso eu acreditar em coincidências, ou os deuses sempre usam o acaso em suas liçoes?

    ResponderExcluir
  4. Os deuses eu não sei... mas o mestre da mesa...

    Fred, a luta do do Ufednar ficou muito boa. Acho que você precisa tirar um minuto ou dois depois que acabar de escrever, sair de perto da história e depois voltar a ler apenas para corrigir pequenos erros de estética ou ortografia. É uma palavra redundante ali, uma entrada de pensamento um pouco deslocada aqui, mas a base da história está excelente. Inspirador mesmo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. com certeza Adan, mas sempre escrevo meio que correndo...no avião, esperando um onibus, etc...mas vou tentar fazer isso!

      Excluir
  5. VIDA LONGA A ULFHEDNAR!!!

    Show de bola, Fred!!! Show de bola mesmo!!! Saudade desse personagem, viu...

    ResponderExcluir