terça-feira, 27 de outubro de 2015

Rirg é bom.

Minha cabeça ainda atordoada se esforçava para acompanhar os novos acontecimentos. Estranhas são as atitudes dos deuses. Enquanto eu, Miro Diad, escudeiro de Sir Roland dos Kallas Nord, orava por força para conseguir fugir, o Lorde Guardião enviou um grupo de desconhecidos àquele lugar esquecido por todos para lhe propiciar a liberdade. Rirg é bom!

Havia um Vet Ulf entre eles. Foi fácil reconhecer, pois ele era um wiedzmin e durante os meus estudos como escudeiro daqueles que carregam a Chama do Norte, conheci a história do Machado e da Espada. O nome dele é Ivarr, tal como ele me disse. Outro membro de fácil reconhecimento era o formidável gnoll branco que estava preso na masmorra. Não apenas alguns costumes da raça me são familiares como também sua língua. Talvez esses dois possam ser bons aliados entre os demais.

O grupo se completava com um arqueiro de poucas palavras ao que os outros chamam Gullinburst, que se esgueira facilmente acobertado pelas sombras. Um clérigo de Donnar, que cheira a rum e que sabe usar melhor as armas e as canções do que sua fé, pelo visto. Um bárbaro portador de uma marreta e grande força corporal. Bersekiano por natureza, é óbvio. Isso ficou claro com seu temperamento agressivo. E por fim um khilasa que, por muito pouco, passaria despercebido. Acho inclusive que sua presença somente foi sentida em meio a exploração do lugar, pois assim ele quis. Caso contrário, provavelmente, não o teria distinguido entre o cenário e os inimigos... é um povo realmente estranho essa raça de ciganos. Talvez seja bom ter mais cuidado com eles do que com as guildas de ladrões da cidade.

De fato, penso eu, é bom conhecer rapidamente cada um deles, pois este grupo é um tanto quanto instável. Passaram a buscar desordenadamente por portas e passagens por todos os cantos sem critérios ou sem cuidado. Por muito pouco não abriram uma porta coberta por uma gosma verde suspeita. Foi preciso um pouco de precaução para convencê-los a testar a gosma que se mostrou uma armadilha maligna. Ao tocá-la começou a corroer um pedaço do metal da espada daquele wiedzmin. A maldade está presente aqui! Notei que o Vet Ulf estava ferido. Posso ajudá-lo através da cura divina? Ainda não domino bem a arte que distingue minha ordem, mas sei que em meu coração existe a fé. E isso basta para conceder a Graça àqueles que dividem minhas mazelas.

Um instante depois alguém gritou de um canto da masmorra que havia encontrado algo. Era um poço. Uma passagem para um outro nível mais baixo daquele lugar. Para averiguar melhor, iluminaram a queda com uma tocha. Uma altura de mais ou menos 12m.

Novamente o wiedzmin se prontificou a descer por uma corda. Outros desceram e tão logo chegaram ao fundo foram recepcionados por mortos-vivos! Malditas criaturas do mal! Meu ímpeto em descer foi controlado pela visão de que não havia espaço para movimentos lá embaixo. Mal poderia usar a besta que eles me forneceram. Seria muito perigoso. No entanto, o que esses aventureiros têm de desordem, compensam em fúria. Sabem muito bem a arte da luta e quando tive oportunidade de descer, foi apenas para arrematar um dos malditos. O resto já estava empilhado.

Exploramos brevemente o lugar e novamente a antecipação do grupo quase nos fez separar na escuridão. Havia passagens estreitas por todos os lados e optamos por uma mais “civilizada” que se mostrou por acabar em uma porta trancada por fora com cravos. Quem quer que estivesse do outro lado queria evitar os mortos-vivos. Sábios nessa decisão, não há dúvidas. O bárbaro tratou a porta com sua marreta. Nenhum problema para sua força, afinal. Apenas pouco prudente... e barulhento! A trilha que se seguia tratava por dois caminhos. Um grupo decidiu buscar o caminho sul, pois, segundo o carismático clérigo com cheiro de rum, “como viemos do norte temos que seguir para o sul”! Eu confesso que devo estar há muito tempo longe dos costumes nortenhos, pois isso não fez o menor sentido para mim. Fui junto ainda assim. Descemos algumas escadas e encontramos um lago de água pútrida e fétida. Minha reação lógica e instintiva foi evitar o lugar, mas acho que o wiedzmin tem uma atração quase hipnótica por esse tipo de ambiente.

Metade do grupo se distanciou do lugar, parece faltar liderança a esse grupo, se enfrentarem uma força coesa, estarão perdidos.
Eu me desloquei com os que seguiram o outro corredor, até que gritos nos trouxeram de volta ao local da água fétida...
Chegamos a ponto de ver uma enorme criatura amorfa, lembrando um sapo gigante, que urrava de dor ao ter sua barriga aberta de dentro pra fora por uma espada empunhada. Enquanto o gnoll rasgava sua carne com suas garras afiadas e o clérigo golpeava com seu martelo, Ivarr saiu de dentro do ventre, empunhando suas espadas e golpeando cegamente. A criatura afundou rapidamente na água, deixando para traz o cheiro horrível e uma ainda mais horrível constatação: ela portava uma espécie de arreio! Quem usaria tal monstruosidade como montaria?

Ainda que todos tenham passado algum sufoco até aqui, esse grupo se mostrou forte e coeso. Talvez isso determine nossa sobrevivência afinal. Nesse instante, enquanto me encaminhava pensativo sobre essa demanda que me ocupava a mente pelo corredor iluminado por tochas, percebi logo a frente um barulho de porta sendo destroçada. Sim, eis que o bárbaro impetuoso pôs a baixo uma porta sem a menor cerimônia. Só pude reconhecer logo a diante o olhar incrédulo de um gnoll sendo alvejado por uma seta. Mas ele não era o único, havia pelo menos quatro outros além de um enorme gnoll que parecia ser o líder do grupo. Adiantei-me e tentei me comunicar sem deixar transparecer minha ansiedade pelo inesperado encontro: “rendam-se e pouparemos vocês!”

Acho que essa situação caiu para a tensão de vez, pois tanto meus companheiros quanto o grupo de gnolls surpreendido em ação se seguraram em seus lugares tentando prever a melhor opção para aquela situação. Rirg é bom! Azagaias e arcos estavam em punho e o ranger de dentes era o único som audível... Enfim, depois de alguns segundos que levaram uma eternidade, o líder gnoll se adiantou e bradou naquele idioma gutural algo que muito dificilmente traduzi como “Porque nos atacam? Quem são vocês?” Senti que não seria um bom negociador, pois meu nervosismo em lidar com aquela situação estava dificultando a minha comunicação... e aí, com mais uma benção do Lorde Guardião, o gnoll branco tomou a frente e iniciou uma negociação. O pouco que ia entendendo, traduzia prontamente para o resto do grupo, que muito impaciente, aguardava a resolução.

“Eles disseram algo sobre um Mestre... sem pelos... ou seja, humano.”
“Acho que foram traídos... apareceram alguns Orcs!” – será que eu estou entendendo direito?
“Ele tem informações, mas pediu algo em troca...”
“50 moedas de ouro!” – disse Uroakk se voltando para nós – “Eles pedem 50 moedas de ouro para nos contar sobre uma valiosa informação.”

Não houve uma resposta convincente, mas a cara que todos fizeram deixou claro que a informação valiosa, seja ela qual fosse, não era tão valiosa quanto 50 moedas de ouro. Como não houve barganha, solicitei espaço para passagem e o chefe gnoll respondeu que poderíamos passar desde que não mexêssemos em suas coisas. Nos demos por satisfeitos e cautelosamente todo o grupo se moveu pelo flanco da sala. Notamos algumas passagens pela sala, mas os gnolls nos apontaram aquela que ia para o norte – contrariando o nosso clérigo – e assim seguimos pela escuridão deixando os mercenários para trás.

Seguiram o bárbaro Thornstein, Ivarr e o agora visível khilasa conhecido por Simows Grã levando a tocha que iluminava o caminho enquanto o restante de nós estava na retaguarda. Ainda estávamos preocupados com uma possível emboscada dos gnolls quando ouvi uma trombeta romper o silêncio de nossa caminhada! Tive uma sensação de que já havia ouvido isso antes... Passos foram ouvidos na vanguarda e depois outra trombeta mais adiante nos corredores. O perigo se aproxima numa forma que a escuridão ainda não nos permite saber exatamente o que é. Isso é ruim.

Oro pela minha vida e pela dos meus companheiros recentes, pois assim ganho forças e controlo minha ansiedade. Creio firmemente que o Lorde Guardião está comigo nessa luta para descobrir onde o meu mestre está.

E Rirg há de ser bom novamente!

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